26/03/2009

Pontapear uma esplanada

Como sou uma pessoa que está adaptada aos tempos que correm, reciclo o papel, o metal, o vidro, o plástico e também deixo que o meu carro polua a atmosfera que respiro e estava eu de volante em punho exercendo o meu direito de tornar o ar um pouco mais irrespirável quando fui assaltado por uma ideia que, a meu ver, iria alterar para sempre o nível de poluição que graça pelo nosso planeta.

Essa tão maravilhosa ideia consistia em pontapear violentamente cada uma das mesas e cadeiras que se encontram nas esplanadas dos cafés e noutros estabelecimentos similares e tem isto uma razão de ser: quando pontapeados estes objectos ganham um impulso que lhes permite avançar pelo espaço que se abre à sua frente e não fosse o atrito, a mesa e a cadeira poderiam percorrer longos percursos em linha recta. Mas como eu tinha como objectivo colocar para além da órbita da Terra cada uma das mesas e das cadeiras seria indispensável um impulso tal que resultasse numa velocidade igual ou superior à necessária para haver a libertação da força da gravidade do planeta Terra. Sabendo eu que a velocidade de escape deste planeta é de 11,2 km/s, fiz umas contas rápidas e deduzi que seria preciso mesmo muita força no pontapé.

Para os que ainda não tiveram a felicidade de se cruzar com a definição de "velocidade de escape" informo-os que é a velocidade necessária para vencer a atracção gravítica de um corpo.

Assim, abri os olhos o mais que pude para localizar com toda a minha acuidade visual uma esplanada que fosse aprazível de ser pontapeada e para minha extrema alegria encontrei uma já ali nas proximidades do meu ser. Quase que pulei que nem um canibal. Aproximei-me da esplanada e atravessei a porta de entrada do café. Teve este atravessamento o efeito de me fazer surgir no interior desse mesmo estabelecimento, significando isto que me fiz movimentar do espaço exterior para o do interior. Seguiu-se depois um encolhimento da distância que me separava do balcão, chegado ao qual disse ao empregado que quero falar com o gerente, prestando-se esta frase ao desabrochar da pergunta posso saber qual é o assunto, que deu origem a um não. O homem foi chamar o gerente e o gerente veio até mim acompanhado por uma esferográfica, dizendo-me boa tarde. Perguntei-lhe se podia pontapear violentamente as mesas e as cadeiras da esplanada e o gerente respondeu que sim. E lá fui eu até à esplanada.

Como facilmente se poderá imaginar, a acção que ali desenvolvi permitiu um desarranjo na arrumação ideal da dita esplanada. Mas antes que tal desordem se apoderasse do espaço em que desenvolvi a performance, todas as mesas e cadeiras que pontapeei com um pontapé (para meu orgulho) tão violento que nem a violência lá chega, fizeram-se regressar ao solo. Questionei-me durante uns momentos sobre a razão que estaria na origem desse vil acto por parte da atmosfera e continuei a questionar-me durante mais uns momentos até que conclui que os objectos ansiavam regressar porque a órbita da Terra está pejada de detritos. E tendo eu como objectivo enviar as mesas e as cadeiras para Marte (livrando a Terra de objectos pré-poluidores) fiquei insapiente quanto à maneira de remover entulho do nosso planeta fazendo-os atravessar a órbita deste.

O voto

Há obras nas estradas o que quer dizer que as eleições estão próximas. A contagem decrescente começará quando se iniciarem as inaugurações. Pergunto-vos: quantos de vós acreditam que o próximo Primeiro Ministro se chama Sebastião?

Ora vamos lá ver aqui uma coisa. O "X" que colocamos no quadrado serve para dizer que "É neste político que eu acredito, portanto é nele que eu voto". Por outras palavras, o voto é algo que respeita o "sim" e o "não" ou o "1" e o "0". Ou seja, é uma pergunta que funciona segundo o princípio do "ligado e do desligado". O que é o mesmo que dizer "Eu acredito neste político portanto vou ligá-lo". Já ouvi por aí pessoas comentarem que "Votei neste porque é o menos mau". Hummmmmmm... Let me think... Havia uma lista de maus e o aprovado foi aquele que de todos os maus é o menos pior? Se tivermos dez batatas que não estão em condições de satisfazerem os nossos apetites devido à falta de condições comestíveis que cada uma apresenta, escolhemos de todas a que menos mal estiver, cortamos-lhe o bocado que estiver podre, deitamos fora esse mesmo bocado juntamente com as outras nove e podemos deglutir convenientemente o bocado sobrado da batata. Como se faz isto com um candidato a ministro?

E que tal se fizermos uma alteração nos boletins de voto? Em vez de se colocar o habitual quadrado para o "X" à frente do logotipo e do nome do partido ou, em alternativa, a foto e o nome do candidato, se passasse a colocar o logotipo e o nome do partido (ou o candidato e a sua foto) seguido da pergunta: "Você acredita neste?". E à frente dois quadradinhos, um para o "sim" e outro para o "não". Quem acredita neste coloca o "X" no "sim", quem não acredita coloca-o no "não". Depois seria apenas necessário contar a quantidade (a qualidade) de votos "sim" que cada um teve.

Outra alteração seria cada um dos votantes habituais estar-se completamente a borrifar para as eleições e ficar em casa ou noutro local a conversar sobre assuntos importantes.

Faço notar que este texto está baseado num sistema um pouco estranho no qual cada pessoa sapiente ou nem por isso tem igualmente direito a um voto.

Mas ide lá votar