25/05/2009

O popó grande

Uma avó acompanha o neto e um neto acompanha a avó e a avó diz ao neto depois deste se ter posto a coberto da esquina de um edifício, ocultando tudo quanto pode ser perigoso para a existência da criatura menor: Cuidado que vem aí um popó grande.

O resto do acontecimento não presenciei porque eu apenas estava de passagem, portanto desconheço se alguém foi atropelado.

“Popó grande” é sinónimo de autocarro, mas não um daqueles autocarros de tamanho normal e que reconhecemos como um autocarro de tamanho normal. Este popó grande era um autocarro daqueles concebidos para atravessar as estreitas ruas dos bairros mais antigos e que são do tamanho de um autocarro concebido para atravessar as estreitas ruas dos bairros mais antigos. E o malvado autocarro lá vinha intentando colocar em perigo a existência do menino. E mesmo que a avó se interpusesse entre o veículo e a criança objectivando a defesa desta, entregando-se, assim, aos confins do destino, o autocarro sairia vencedor do combate.

Desta pequena história levanta-se uma questão pertinente: nós deveríamos ser atropelados por uma viatura que se coadunasse com o nosso tamanho. Desta maneira, uma criança em idade pré-escolar (uma idade que engloba várias idades) deveria ser atropelada por um triciclo ou por uma bicicleta, um adolescente passaria para o nível seguinte (uma scooter parece-me bem) e assim por diante. Mas atenção que esta divisão etária é apenas um exemplo, o que de facto interessa é o tamanho da matéria densa de uma pessoa, isto é, quanto mais alta ou mais massiva for uma pessoa, maior é o veículo que o atropelará. Para os maiores de todos um super-petroleiro será suficiente.

14/05/2009

O capacho bem-vindo

Apraz-me tremendamente escrever sobre os capachos de entrada que nos cumprimentam com um “Bem-vindo”. É nesses simpáticos e educados capachos que nós limpamos a sujidade que trazemos colada às solas do nosso calçado. Tal situação lembra-me uma agradável cena em que uma pessoa simpática e educada nos diz “bem-vindo” e nós respondemos com um bofetão na boca dessa pessoa por ela nos ter dirigido aquelas palavras tão ameaçadoras.

Porque é que os donos de uma casa que tem um capacho bem-vindo se sujeitam a que os visitantes (supostamente bem-vindos) limpem a sujidade e outras coisas à hospitalidade que lhes é oferecida? Com isto, o visitante está-se perfeitamente a borrifar para a hospitalidade do visitado e do seu capacho. O indicado seria o visitante libertar-se da sujidade num outro capacho colocado estrategicamente (e que não fosse decorado com um bem-vindo) antes do capacho bem-vindo para que quando as solas do calçado do visitante acariciassem o capacho educado já se mostrarem límpidas e puras, sem trazer em si os males de calcar as ruas e caminhos percorridos. Ora, esta situação tem, claro está, uma desvantagem. O capacho bem-vindo perderia a sua função. Toda a sua razão de viver ruiria porque um capacho serve para ser um capacho. Dificilmente um capacho se tornará num agradável tapete da sala. Logo, deixaria de haver capachos bem-vindo e quem compra capachos bem-vindo deixaria de ter capachos bem-vindo para comprar sujeitando-se à não-compra de um capacho bem-vindo.

Mas com jeitinho consegue-se limpar a sujidade às áreas do capacho que não estão cobertas pelas letras do “bem-vindo” como, por exemplo, a zona que fica por cima do “bem” ou o pequeno espaço que se abre entre o D e o O de “vindo”.