Apostei com um turista que deambulava pelas proximidades em como conseguia ser o primeiro a colocar o pauzinho do gelado (ambos tínhamos estado a lamber um) no contentor de lixo que ficava ali ao fundo da rua. Salienta-se o turista não se fazer acompanhar por um receptor GPS, caso, em vez do turista estrangeiro, fosse um tuga (turista ou não-turista) este far-se-ia acompanhar por uma geringonça GPSiana, para que pudesse colocar o endereço do contentor do lixo no dito receptor não só para o localizar como também para evitar que se perca errando por aí (“errar” do grego). Mas adiante. Estávamos eu e o turista com o pauzinho na mão em posição de partida quando a musa que também por ali estava deu o sinal de partida. Como a musa também era estrangeira, este sinal foi um “Go!” (ela falou em inglês porque é a língua internacional). Se, em vez dela, tivesse sido um cidadão nativo destas regiões lusitanas, o sinal de partida poderia ser uma vasta cuspidela verde para cima de um eléctrico enquanto uma família de turistas estrangeiros observaria o acontecimento. Sinal de partida dado e lá fomos eu e o turista e o turista e eu a percorrer o mais velozmente possível os 152 metros que nos separavam do contentor em causa. Por duas vezes o meu adversário foi atropelado na mesma passadeira que tínhamos que atravessar. Eu consegui desviar-me dos carros porque tenho já uma certa prática em utilizar as passadeiras para atravessar as ruas. Um pouco mais à frente, dois ou três bandidos foram ao bolso do turista e levaram-lhe a carteira sem que este se tivesse apercebido. Eu virei a cara e fingi que não vi porque, além de não estar interessado em receber retaliações daqueles funcionários do crime, qualquer queixa que fizesse às autoridades competentes deveria quase certamente ser arquivada antes de chegar a um término justo (não estou a difamar o trabalho dos agentes da autoridade). E a corrida lá continuou, ora eu à frente, ora ele à frente. Já perto do contentor, quando me preparava para dar um golpe de mestre na minha corrida para a vitória reparei, para minha grande surpresa, que a tampa do contentor estava fechada, posição contrária à de muitas vezes. Note-se que a tampa do contentor aberta permite a execução de um divertido jogo chamado “fazer pontaria com o lixo” por parte de alguns habitantes. Alguns deles até têm boa pontaria e acertam no alvo. Mas, terror dos terrores, a tampa estava fechada e o turista já estava a correr mais rápido do que eu. Pensei então no plano B que trata do local alternativo no qual os sacos de lixo são deixados: empilhados ao lado do contentor de lixo numa pilha de fazer inveja a qualquer magnata do lixo. Pensei também em fazer uma placagem ao turista atirando-o ao chão (este seria o plano C). O plano D seria levá-lo a visitar a residência oficial do Presidente da República e o Ministério das Finanças (claro que só ia o turista; eu continuaria a correr). Também havia um plano E mas esqueci-me do que consistia. Talvez se eu fizesse figura de parvo a correr e a dar saltinhos idiotas para a frente e para trás enquanto aprendia a dançar o Lago dos Cisnes, o turista se distraísse comigo achando que eu seria uma atracção de rua e eu ainda ganharia uma ou duas moedas pela minha actuação. E o contentor cada vez mais perto, tão perto que o odor já chegava a estes dois competidores.
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