21/06/2009

Buzinar num semáforo

Finalmente descobri a razão de acontecer a situação que abaixo descrevo.

Eu e alguns outros seres humanos estávamos, cada um ao volante do seu automóvel, em fila de espera, aguardando para que o semáforo se transformasse em verde. E os segundos passaram até que, por fim, a luz verde acendeu. No milésimo de segundo que sucedeu ao acender do verde, o condutor de uma viatura que se situava uns metros atrás de mim, buzinou alertando os outros que o verde se havia acendido.

Antes de ser iluminado pela descoberta que fiz, pensei que quem emitisse um sinal sonoro deste tipo seriam pessoas impacientes que dificilmente entendem que nem toda a gente está a competir com a luz verde para saber quem ganha: se é a luz verde a acender ou se é a buzina a apitar. Devo dizer, em tom de apontamento, que a luz verde ganha sempre porque não precisa de ouvir a buzina para se acender, enquanto que a buzina precisa de ver a luz verde a acender para apitar.

No interregno que se seguiu à buzinadela o óbvio apoderou-se da minha mente: os condutores que buzinam logo que se acende o verde fazem-no com um propósito. Eles são os servos das pessoas que se posicionam no primeiro lugar da fila (aquele que mais próximo está do semáforo). Desta forma, o amo não precisa de estar atento à mudança de cor, pois ele tem servos que se encarregam dessa função avisando-o com uma buzinadela. E, espantosamente, é de saudar a qualidade da acuidade visual dos servos pois, ainda mal a luz verde teve tempo de ficar verde e já estes avisam o seu senhor que o semáforo deu autorização para prosseguir viagem. Julgo que esta classe conduz com uma das mãos sobre a buzina para que se possa minorar o mais possível o tempo de resposta ao acender do verde.

06/06/2009

Eu, o turista e o contentor de lixo

Apostei com um turista que deambulava pelas proximidades em como conseguia ser o primeiro a colocar o pauzinho do gelado (ambos tínhamos estado a lamber um) no contentor de lixo que ficava ali ao fundo da rua. Salienta-se o turista não se fazer acompanhar por um receptor GPS, caso, em vez do turista estrangeiro, fosse um tuga (turista ou não-turista) este far-se-ia acompanhar por uma geringonça GPSiana, para que pudesse colocar o endereço do contentor do lixo no dito receptor não só para o localizar como também para evitar que se perca errando por aí (“errar” do grego). Mas adiante. Estávamos eu e o turista com o pauzinho na mão em posição de partida quando a musa que também por ali estava deu o sinal de partida. Como a musa também era estrangeira, este sinal foi um “Go!” (ela falou em inglês porque é a língua internacional). Se, em vez dela, tivesse sido um cidadão nativo destas regiões lusitanas, o sinal de partida poderia ser uma vasta cuspidela verde para cima de um eléctrico enquanto uma família de turistas estrangeiros observaria o acontecimento. Sinal de partida dado e lá fomos eu e o turista e o turista e eu a percorrer o mais velozmente possível os 152 metros que nos separavam do contentor em causa. Por duas vezes o meu adversário foi atropelado na mesma passadeira que tínhamos que atravessar. Eu consegui desviar-me dos carros porque tenho já uma certa prática em utilizar as passadeiras para atravessar as ruas. Um pouco mais à frente, dois ou três bandidos foram ao bolso do turista e levaram-lhe a carteira sem que este se tivesse apercebido. Eu virei a cara e fingi que não vi porque, além de não estar interessado em receber retaliações daqueles funcionários do crime, qualquer queixa que fizesse às autoridades competentes deveria quase certamente ser arquivada antes de chegar a um término justo (não estou a difamar o trabalho dos agentes da autoridade). E a corrida lá continuou, ora eu à frente, ora ele à frente. Já perto do contentor, quando me preparava para dar um golpe de mestre na minha corrida para a vitória reparei, para minha grande surpresa, que a tampa do contentor estava fechada, posição contrária à de muitas vezes. Note-se que a tampa do contentor aberta permite a execução de um divertido jogo chamado “fazer pontaria com o lixo” por parte de alguns habitantes. Alguns deles até têm boa pontaria e acertam no alvo. Mas, terror dos terrores, a tampa estava fechada e o turista já estava a correr mais rápido do que eu. Pensei então no plano B que trata do local alternativo no qual os sacos de lixo são deixados: empilhados ao lado do contentor de lixo numa pilha de fazer inveja a qualquer magnata do lixo. Pensei também em fazer uma placagem ao turista atirando-o ao chão (este seria o plano C). O plano D seria levá-lo a visitar a residência oficial do Presidente da República e o Ministério das Finanças (claro que só ia o turista; eu continuaria a correr). Também havia um plano E mas esqueci-me do que consistia. Talvez se eu fizesse figura de parvo a correr e a dar saltinhos idiotas para a frente e para trás enquanto aprendia a dançar o Lago dos Cisnes, o turista se distraísse comigo achando que eu seria uma atracção de rua e eu ainda ganharia uma ou duas moedas pela minha actuação. E o contentor cada vez mais perto, tão perto que o odor já chegava a estes dois competidores.

02/06/2009

Em torno do baptismo católico

Ainda na maternidade e no berço que marca o Solstício de Inverno, o Bebé Pedro vira-se para o Bebé do Lado e diz-lhe "Vamos faltar ao compromisso que nos espera". O Bebé do Lado estava a dormir e não ouviu bem e pede ao Bebé Pedro para repetir e este, pela segunda vez, diz "Vamos faltar ao compromisso que nos espera". "O que dizes?" pergunta o Bebé do Lado. "Vamos faltar ao compromisso que nos espera".

O Bebé do Lado, sem pestanejar, aceita a ordem do Bebé Pedro e inicia-se um passa-palavra entre os bebés que por ali se quedam. Um passa-palavra que é corrido longe dos olhares e audições das pessoas de bata branca que dependem do nascimento de bebés para a sua sobrevivência.

Mas o Bebé do Lado quer saber mais e pergunta ao Bebé Pedro por que razão devem faltar ao tal compromisso ao que o seu mestre lhe responde "Que direito têm os de bata branca e as pessoas que nos geraram de decidir por nós?". "Mas mestre", continua o Bebé do Lado, "conta-se por aí que nós, bebés, não temos capacidade de decidir e que, por isso, há alguém que intercede por nós". "Ouve-me, Bebé do Lado, escuta as minhas palavras: Deverá o guerreiro vencer o seu adversário quando este já se encontra prostrado pelo chão (vítima de um outro combate) ou deverá o guerreiro estender-lhe a mão, ajudá-lo a levantar-se e, só após isso, cruzarem as suas espadas e machados?"

"Deixas-me um pouco confuso, mestre. Pretendes guerrear contra os que nos criam e nos fazem parir?"

"Não necessariamente, caro companheiro. Não ouviste tu que o guerreiro se recusa a vencer o seu semelhante enquanto este se prostrar pelo chão?"

"Assim foi".

"E não te parece que o guerreiro, estando ele numa posição de supremacia, se tornaria num vencedor sem honra?"

"Absolutamente".

"E não crês que estando o outro estendido pelo chão se mostra com uma postura inferiorizada, tornando-se num vencido a quem não foi dada a possibilidade de se defender?"

"Com certeza".

"Então vem. Vem comigo, traz os outros e vamos para fora desta caverna".

01/06/2009

O Homo Sapiens Sapiens e a atmosfera

Veja-se este entre muitos outros exemplos à escolha: a destruição que está a ser feita à atmosfera que rodeia o planeta Terra. Para quem não sabe, o planeta Terra é aquele em que habitamos. Também para quem não sabe, o Homem respira a atmosfera do planeta Terra. Ora, sabemos desde há algum tempo, que esta mesma atmosfera, a mesma que respiramos e que precisamos para viver, está-se a deteriorar e que, a continuar assim, daqui a algum tempo não haverá atmosfera para respirar o que é o mesmo que dizer que finalmente o Homem conseguiu concretizar o objectivo que desejava. Mas o problema é ainda mais grave. Volta e meia (ou mais meia do que volta) ouve-se algum indivíduo importante dizer que temos que fazer alguma coisa para acabar com a destruição desse ar respirável, mas de nada serve porque continua-se na mesma situação (acentuo o "-se") e deixam o problema para ser resolvido pelas próximas gerações, o que até é bem pensado (da parte de quem estraga, claro) já que quem estraga já não vai precisar de ter ar para respirar quando não houver ar respirável (ou será que vai?), portanto, “os outros que aí vêm tratam do problema que não vai ser meu” (não seria má ideia começar a investir em Homo Sapiens Sapiens que respirem dióxido de carbono, por exemplo, ou resistentes a um certo tipo de “coisas” emitidas pelo Sol).

É claro que percebo que esses indivíduos sapientes e que até sabem a sabedoria tenham coisas importantes em que pensar e que fazer tais como saber que personagem da novela é o vilão, ter 15 minutos de fama, aparecer na televisão a falar ao telemóvel, entregar os excedentes de comida aos insectos, criar reservas naturais onde até se pode construir empreendimentos turísticos e dos outros… Por falar nisso, até que era boa ideia vender “15 minutos de fama” nos supermercados (estaria na secção ao lado dos congelados). E na compra de "15 minutos de fama" o feliz enfamado temporário poderia (através de sorteio) auferir da degustação atmosférica de um pouco de sujidade aérea. Já me estou a imaginar num paraíso a tragar violentas inspiradelas levando o ar a percorrer as entranhas do meu corpo. E até adaptaria um ritmo respiratório para melhor efectivar a doçura carbónica que se apoderaria de mim. Depois, motivado pela experiência, fundaria uma agência de viagens apenas com o intuito de criar um pacote especial destinado a quem pretendesse usufruir de uma experiência semelhante. E até comprava toda a atmosfera terrestre para monopolizar o comércio nessa área. E cobrava taxas por poluírem aquele que, por direito, é o meu espaço. Levantava limites de poluição aos agentes poluidores (que um ou outro poderá ultrapassar desde que o faça porque sim).

Homo Sapiens Sapiens? Sapiens ???